Crônica do querer



Tinha vício de querer. Não necessariamente de sonhar. Sonhar exige o exercício de imaginação de tirar os pés do chão e permitir se levar a um lugar distante da fina frustração humana. Mas queria tudo, tanto, o tempo todo. Queria ir até São Paulo, queria nadar nas praias do Rio, queria um carro novo, queria tomar sorvete antes do almoço, queria alguém para lhe amar a seu modo. Queria. E dentro de seu peito, os desejos realizados morriam como a onda que nasce furiosa no meio do mar e vem percorrendo a costa até chegar a praia, estourar e morrer, sem tempo para angústias, pois logo vem outra e outra... Mas em algum ponto, o vai-e-vém sem fim lhe deu a angústia. No fim das contas, não era a falta de movimento o problema e sim seu excesso. Era tão imenso! Mas em nada isso lhe tocava. Por maior que parecesse ser sua vontade, logo lhe via outra. Dizem que devemos ser insaciáveis pela vida, mas não se imagina a dor de não ser suficiente. Procurava na resolução de seus desejos um sentimento que não sabe se algum dia já conhecera, mas se iludiu em sua existência: procurava uma pausa. Um momento em que não desejasse nada, em que sua satisfação não estivesse atrelada a alguma vontade. Que sentisse que já tivera tudo e que agora procuraria outro nível; evoluiria de fase. 
E em um dia desses, depois da exaustão chegar e a solidão também, por mais que tivesse gente ao seu redor, se negou. Disse não a um desejo que lhe surgia no peito amargurado: queria comprar uma nova casa, que dizia a propaganda, ser no melhor lugar do mundo. Mas já tinha mais casas do que podia morar e nenhuma deles nunca fora seu lar. Talvez a casa dos seus pais tivesse sido um lar. Ao se negar, uma parte de si agiu como criança mimada acostumada a ter tudo. Protestou. Jurou que aquilo não era vida, que era a pessoa mais infeliz do mundo. Outra parte estava curiosa para saber o que aconteceria com o primeiro não dito a si mesmo, não por motivos alheios, mas por si próprio. E depois de uma das partes chorar muito e se revoltar a tarde toda, ainda aos soluços do choro, deixou-se estar em uma praia no fim de tarde. Só, dessa vez por escolha. E o tal do sentimento imaginado de paz ou qualquer nome de valor semelhante se abarcou de sua pessoa. Seu íntimo, naquele momento, não deixou-se abalar pelas ondas tempestuosas do orgulho e do egoísmo humano, tão seu. Deixou-se, entretanto, se embebedar de uma perfume renovador de esperança e alegria. Pois foi quando entendeu que não há liberdade maior do que se libertar de seus mesquinhos desejos e se abrir , e se permitir, finalmente, sonhar.
                                                                                             Texto de Luana N. Pena

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